A empresa de ativos Bitcoin Twenty One Capital, apoiada conjuntamente pelos gigantes das stablecoins Tether, Bitfinex e o SoftBank, sofreu um revés no seu primeiro dia de negociação na Bolsa de Nova Iorque após a fusão via SPAC. A 10 de Dezembro, o seu código de acções XXI abriu já abaixo do preço de emissão, fechando o dia a 11,42 dólares, uma queda de 20% em relação ao preço de fecho da Cantor Equity Partners (a SPAC de fusão) antes da operação, com uma capitalização bolsista de cerca de 4 mil milhões de dólares. A empresa detém atualmente cerca de 3,9 mil milhões de dólares em Bitcoin e planeia expandir-se para infra-estruturas financeiras e media/educação no universo Bitcoin, para além da mera detenção de activos. Esta queda inicial revela a cautela do mercado em relação às novas empresas cripto cotadas em bolsa, num contexto em que o preço do Bitcoin recuou 28% face ao pico anual e o modelo de tesouraria de activos digitais enfrenta desafios estruturais.
Para os investidores que pretendiam exposição ao Bitcoin através dos mercados públicos, o dia 10 de Dezembro serviu de alerta. A muito aguardada Twenty One Capital concluiu a fusão com a Cantor Equity Partners e abriu cotação na Bolsa de Nova Iorque. Contudo, o “banho de água fria” foi imediato: o preço de abertura ficou-se pelos 10,74 dólares, bem abaixo dos 14,27 dólares de fecho da Cantor SPAC no dia anterior. Apesar de uma ligeira recuperação intradiária, acabou por fechar a 11,42 dólares, acumulando uma queda diária de 20%.
Este desempenho não é caso isolado: reflecte uma tendência de arrefecimento nos IPOs de empresas cripto. No dia anterior, outra empresa de tesouraria Bitcoin, a ProCap Financial, também cotada via SPAC, caiu 14% na estreia. Isto demonstra que, mesmo com grandes investidores como a Tether e o SoftBank, o mercado revela forte aversão ao risco e elevada sensibilidade ao preço quando se trata destas novas empresas cotadas. O contexto macroeconómico também não ajuda: o preço do Bitcoin caiu mais de 28% desde o máximo histórico (cerca de 126 mil dólares em Outubro), o que reduziu o apetite pelo risco em acções do sector.
Por outro lado, o próprio modelo de listagem via SPAC perdeu o brilho. Esta solução de “entrada por aquisição” foi muito popular em 2021, mas agora os investidores dão mais peso à rentabilidade, qualidade dos activos e potencial de crescimento da empresa resultante da fusão, e menos ao simples facto de estar cotada. O mau desempenho da Twenty One no primeiro dia pode ser visto como um teste realista à avaliação e ao modelo de negócio da empresa.
Apesar do arranque difícil, os accionistas e equipa de gestão da Twenty One Capital merecem atenção. Os principais accionistas são a Tether e a Bitfinex — nomes dominantes no universo das stablecoins — e contam ainda com o investimento minoritário do gigante japonês SoftBank. Esta combinação traz-lhe recursos únicos: a Tether oferece o seu poder financeiro e influência no ecossistema cripto, enquanto o SoftBank acrescenta uma rede global de investimento tecnológico e reputação de marca.
A liderança está a cargo de Jack Mallers, fundador da Strike, uma aplicação de pagamentos na Lightning Network. Em entrevista, Mallers demarcou-se do modelo da Strategy, sublinhando que a Twenty One não se limita a copiar a estratégia de “emitir acções com prémio para comprar Bitcoin”. Segundo Mallers, as acções da empresa não têm prémio face ao valor líquido dos Bitcoins detidos, tornando-a “uma ferramenta muito atractiva” para investidores que queiram exposição ao Bitcoin, e potencialmente uma vencedora neste segmento.
Esta declaração revela a ambição da Twenty One em diferenciar-se no segmento das tesourarias digitais. Numa altura em que o modelo “infinite money glitch” da Strategy é posto em causa pelo desaparecimento do prémio sobre o preço das acções, a Twenty One aposta numa entrada com “prémio zero” ou “baixo prémio”, oferecendo um veículo de investimento em Bitcoin mais puro e com avaliação mais racional. O plano de negócios da empresa vai além da mera detenção de activos, incluindo infra-estruturas financeiras, media e educação sobre Bitcoin, visando criar um ecossistema multifacetado. No entanto, o mercado ainda não parece convencido por esta narrativa, como demonstra a forte queda no dia da estreia.
O desempenho frio da Twenty One tem causas mais profundas: o modelo de “Digital Asset Treasury” (DAT) enfrenta desafios estruturais inéditos. Desde o início do ano, empresas DAT como a Strategy e a BitMine têm registado quedas significativas nas acções, sob três pressões principais.
A primeira vem da desvalorização dos activos. A queda nas cotações do Bitcoin e outras criptomoedas reduz directamente o valor dos activos principais destas empresas e os seus lucros contabilísticos. Em segundo lugar, há a mudança de paradigma competitivo. A introdução e popularização dos ETFs de Bitcoin spot oferece aos investidores institucionais e tradicionais uma alternativa de menor custo, maior liquidez e sem prémios de gestão, minando o argumento das DAT como proxies do Bitcoin. Por último, a lógica de valorização destes veículos entrou em colapso: o mercado já não paga prémios sobre o valor líquido dos activos, inviabilizando o modelo de “perpétuo motion” de emitir acções para financiar novas compras de Bitcoin.
Neste cenário, a estratégia de “prémio zero” da Twenty One é uma faca de dois gumes. Evita o risco de colapso do prémio, ao contrário da Strategy, dando à avaliação um perfil mais sólido. Mas ao mesmo tempo, elimina o recurso ao prémio como ferramenta de gestão de capital e aceleração da acumulação de activos. Provar que é mais vantajosa do que simplesmente deter um ETF Bitcoin passa a ser o grande desafio para a Twenty One e a sua liderança. Resta saber se as áreas de infra-estrutura e media planeadas conseguirão gerar um alfa adicional atractivo para os investidores.
Para além da entrada em bolsa, um episódio recente na vida do CEO da Twenty One, Jack Mallers, ilustra bem o fosso entre o universo cripto e o sistema financeiro tradicional. A 24 de Novembro, Mallers partilhou nas redes sociais uma carta emoldurada do JP Morgan Chase, datada de 2 de Setembro de 2025, informando-o do encerramento da sua conta devido a “questões de conformidade com o Bank Secrecy Act e outros regulamentos” e “actividade anómala”, proibindo-o de abrir novas contas no futuro — sem explicação adicional.
Mallers referiu que, apesar da longa relação comercial do seu pai com o JP Morgan, isso não evitou o encerramento. Este caso, embora isolado, é altamente simbólico. Demonstra que, mesmo para empreendedores de sucesso no sector Bitcoin — prestes a liderar uma empresa cotada em Nova Iorque —, a banca tradicional pode cortar unilateralmente o acesso a serviços financeiros fundamentais, invocando riscos de conformidade pouco claros. Este risco de “desbancarização” é uma dura realidade para muitas empresas e profissionais nativos do sector cripto.
Para a Twenty One, esta experiência do fundador é um lembrete para investidores e equipa: o caminho das empresas cripto não se faz apenas enfrentando a volatilidade do mercado de capitais, mas obriga também a lutar continuamente pela legitimidade e aceitação junto das infra-estruturas financeiras convencionais. Construir pontes sólidas e de confiança com o sistema financeiro regulado será sempre um requisito essencial para uma operação sustentável a longo prazo.
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