Ano passado pedi demissão. O RH disse que precisava escrever a razão claramente.


Eu escrevi: Razões pessoais.
Ela disse que era muito vago. Queria algo mais específico.
Eu adicionei uma linha: Mudanças familiares.
Ela perguntou, que mudança. Quem. Qual relação. A empresa precisa ajudar?
Eu disse, meu pai está hospitalizado.
Ela assentiu. Anotou. Depois perguntou, qual doença. Qual hospital. Quanto tempo ficou internado.
Eu olhei para ela. Falei a verdade.
“Não é doença. É dívida de jogo. Os credores apareceram. Minha mãe pediu para eu voltar.”
Ela parou de escrever. O som do ar-condicionado ficou de repente muito alto.
Então ela disse uma frase que ainda lembro.
“Isso também deveria estar escrito. A empresa precisa avaliar o nível de risco da sua saída.”
Só depois percebi.
Eles não queriam a razão. Queriam os dados.
Cada formulário de demissão com “Razões pessoais” seria transformado em etiquetas. Mudanças familiares. Internação de parente direto. Tipo específico de doença. Duração da internação.
Calculam algo chamado “Índice de Estabilidade do Funcionário”.
Usado para decidir quem receberá aumento no próximo ano. Quem será transferido. Quem não terá renovação de contrato.
A última linha do meu formulário foi entregue.
Na razão, ainda escrevi quatro palavras: Razões pessoais.
No verso, escrevi uma pequena frase.
“Se perguntarem de novo, vou escrever ‘Razões da empresa’.”
Ela viu, carimbou. Não falou mais nada.
No dia da demissão, encontrei um recém-formado no elevador. Com um documento de licença. Motivo: assuntos pessoais.
Um funcionário mais antigo ao lado bate nele: “Mude para Reunião Familiar. A aprovação é rápida.”
As portas do elevador se fecharam.
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