Se colocares lado a lado um prisioneiro que está a cumprir pena e um monge asceta em retiro, vais descobrir um facto absolutamente absurdo. Ambos comem a comida vegetariana mais simples, vivem em quartos minúsculos de poucos metros quadrados, passam 24 horas por dia nesse espaço e nem sequer têm telemóvel para se entreter. Do ponto de vista das condições físicas, a situação dos dois é quase idêntica. No entanto, para o prisioneiro, cada dia parece um ano, cada segundo é uma tortura, a sua mente está à beira do colapso, enquanto o monge sente alegria interior e até encontra grande liberdade espiritual nesta vida austera. Com os mesmos parâmetros físicos, porque é que o resultado emocional é tão diferente? Muitos dirão: porque para um é castigo, para o outro é fé – mas essa explicação é demasiado vaga.



O psicólogo Edward Deci fez uma experiência ainda mais interessante. Reuniu dois grupos de pessoas para resolver puzzles: ao grupo A dava dinheiro por cada puzzle resolvido, ao grupo B não dava nada, era só pelo prazer de jogar. Quando deixou de dar dinheiro, o grupo A perdeu imediatamente o interesse, até acharam os puzzles aborrecidos; já o grupo B continuou entusiasmado, disposto até a dedicar o tempo livre a resolver puzzles. Isto levou a uma verdade que ignorámos durante meio século: a motivação humana nunca foi fruto de tentação ou coerção. Então de onde vem? Voltemos ao exemplo do prisioneiro e do monge. A diferença está apenas nisto: a porta foi trancada por outros ou foi fechada por nós próprios. Isto chama-se ponto de controlo percebido. Quando o ponto de controlo está no exterior, és um escravo, o teu sistema motivacional chama-se obediência. Quando o ponto de controlo está dentro de ti, és o mestre, o teu sistema motivacional chama-se autonomia.

Então surge a questão: sendo a autonomia tão satisfatória, porque é que a maioria de nós sente que ir trabalhar é como ir a um funeral, viver é como estar preso? Será falta de autodisciplina? Não. É porque o sistema social em que vivemos foi desenhado com base no behaviorismo do século XIX. Pensa: para que serviam as primeiras fábricas? Não precisavam que tivesses cérebro, só queriam que repetisses tarefas com precisão, como uma máquina. Para te obrigar a obedecer, inventaram o sistema da cenoura e do pau: trabalhas bem, recebes dinheiro; trabalhas mal, és despedido. Esta lógica dura há 200 anos. Treinaram-nos como burros que só andam quando veem a cenoura. Aceitámos esta resposta passiva como verdade absoluta, habituámo-nos a esperar ordens, a ser pressionados por KPIs, a entregar o comando da nossa vida. Quando até as horas de comer e dormir são decididas pelo chefe ou pelo relógio de ponto, o teu cérebro determina: “Eu não sou dono da minha vida, apenas estou a alugar o meu tempo.” E quem aluga uma casa, dificilmente se empenha em decorá-la.

É por isso que, apesar de querermos esforçar-nos, acabamos muitas vezes por desistir sem pensar — eis a raiz biológica do problema. Como resolver? Temos de nos despedir e virar monges? Claro que não. Os verdadeiros mestres, aqueles que triunfam no trabalho com decisão e energia inesgotável, fazem uma coisa muito discreta: transferem o ponto de controlo para dentro. Um exemplo prático: tanto programar como preparar um plano, a maioria pensa “O chefe pediu, faço para receber o ordenado, se não fizer levo uma reprimenda”. Aqui, o ponto de controlo está nas mãos do chefe: és o prisioneiro, a resistência é máxima, procrastinas o mais possível.

Já o mestre dissocia a tarefa do chefe: mesmo que seja uma ordem, redefine-a internamente. “Estou a usar os recursos da empresa para subir de nível.” “Este projeto é difícil? Ótimo, serve para testar o que aprendi em arquitetura.” “Resolver este problema financeiro não é azar, é uma aula cara de gestão de risco.” O trabalho é o mesmo, mas ao mudares o sujeito de “por eles” para “por mim”, deixas de ser o prisioneiro a olhar para a parede e tornas-te o monge que fecha a porta para se aperfeiçoar.

Isto não é apenas mudar de mentalidade — é reescrever o código-fonte do teu cérebro. Por isso sentimo-nos impotentes e perdidos, não porque estejamos esgotados, mas porque não estamos ao volante da nossa própria vida. Preocupamo-nos demasiado com o sistema de avaliação dos outros: quanto dinheiro ganhámos este ano, se o carro é melhor que o do vizinho, se o emprego é respeitável. Enquanto viveres por estes indicadores externos, és escravo do behaviorismo, sempre à espera da próxima cenoura. Mas as verdadeiras feras nunca olham para as recompensas do circo.

Tenta apontar o dedo para dentro, para ti próprio. Neste mundo cheio de ruído e algoritmos, onde até a ansiedade é produzida em massa, recupera o direito de interpretar os teus próprios atos. Quando percebes que a dor, o desafio ou até o fracasso que enfrentas agora são escolhas tuas para seres melhor, é aí que a energia, há muito perdida, regressa ao teu corpo. Não sejas o burro da nora, sê quem cria o vento. É difícil, mas só assim é que se vive verdadeiramente.
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