A crise cambial do Irã está se acelerando. Enquanto o valor do real continua a despencar, os cidadãos estão cada vez mais transferindo seus ativos para Bitcoin e stablecoins. Na maior exchange, Nobitex, após o conflito militar no mês passado, a saída de ativos aumentou 700% em poucos minutos. Isso não é apenas especulação, mas uma tentativa desesperada de proteger suas vidas.



Ao caminhar pelas cidades de Teerã e Mashhad, é possível sentir a tensão de uma sociedade cujo dinheiro perdeu sua credibilidade. Quando o acordo nuclear foi assinado em 2015, a cotação era de 1 dólar = 32.000 reais, mas agora ultrapassa 1,5 milhão de reais. Nos últimos anos, a moeda caiu quase 50 vezes. Enquanto o dólar continuar sendo o centro financeiro mundial, o Irã sob sanções não consegue confiar na sua própria moeda.

O que é interessante aqui é a relação entre o governo e os cidadãos. As autoridades veem as criptomoedas como um fator que acelera a desvalorização do real e, no começo deste ano, abruptamente bloquearam o canal de pagamento em reais nas exchanges. Mais de 10 milhões de usuários ficaram impossibilitados de comprar diretamente. Mas a demanda não desaparece. Ela simplesmente se desloca para negociações clandestinas ou P2P.

Na verdade, o próprio governo depende das criptomoedas. Diz-se que o Banco Central do Irã adquiriu mais de 500 milhões de dólares em USDT até 2025. As forças armadas também estão transferindo dezenas de bilhões de dólares em criptomoedas. Ou seja, enquanto o governo limita as transações dos cidadãos, ele próprio está utilizando esses ativos, criando uma contradição.

Essa contradição estrutural fica ainda mais evidente com a questão da energia. O Irã é o quarto maior país em mineração de Bitcoin no mundo, mas mais de 95% das operações estão sem licença. O governo fala em combater a mineração ilegal, mas na prática ela continua crescendo. A razão para isso fica clara ao entender o conceito de arbitragem de energia: uma estratégia de alocação de recursos baseada na diferença entre energia barata e preços elevados no mercado, que é explorada de forma estratégica.

Instalações de mesquitas e de militares recebem energia quase de graça. Lá, operações de mineração em grande escala estão em andamento. Por outro lado, as residências comuns sofrem com apagões no verão. Segundo a Tavanir, a mineração consome cerca de 2000 MW de energia, o equivalente a duas usinas de reator de Bushehr. Essa quantidade pode representar de 15% a 20% do déficit de energia.

Não se trata apenas de um problema técnico de energia, mas de uma questão de poder e arbitragem. Recursos limitados estão concentrados nas mãos de uma elite privilegiada. Os cidadãos, enfrentando alta inflação, só podem esperar e tocar na tela para receber airdrops. Até meados de 2024, o jogo de "toque e ganhe" no Telegram virou uma febre no Irã, com cerca de um quarto da população participando.

A crise econômica do Irã não é apenas uma crise cambial, mas uma perda de confiança no sistema como um todo. Os cidadãos não confiam na sua moeda, o governo limita suas transações e, ao mesmo tempo, usa criptomoedas para proteger seus ativos. A diferença de preço baseada na arbitragem de energia é acessível apenas aos que detêm poder. Dentro dessa contradição estrutural, para o povo comum do Irã, as criptomoedas deixaram de ser apenas uma especulação e se tornaram uma questão de sobrevivência. A imagem de cidadãos tocando seus smartphones durante os apagões simboliza a realidade atual do Irã.
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