
O CEO da JPMorgan Chase, Jamie Dimon, alertou, na carta anual aos accionistas publicada a 6 de Abril, que as perdas globais em empréstimos alavancados «serão maiores do que o esperado» quando o mercado de crédito privado entrar no seu ciclo, e que as perdas reais actuais estão «acima do nível que deveriam». Dimon afirmou ainda que o mercado de crédito privado, com uma dimensão de cerca de 1,8 biliões de dólares, «poderá não constituir risco sistémico», mas apelou para que o mercado encare duas grandes falhas estruturais.
Dimon identifica directamente na carta aos accionistas os problemas estruturais do mercado de crédito privado, e não apenas a descrição da volatilidade cíclica.
Primeiro grande problema: abrandamento dos critérios de aprovação do crédito. Nos últimos anos, o limiar de aprovação dos empréstimos no mercado de crédito privado tem, de forma geral, vindo a descer, o que fez com que as perdas reais actuais já ultrapassem o nível que é compatível com as condições normais do mercado. À medida que o ciclo de crédito se aprofunda, esta tendência deverá amplificar ainda mais a dimensão das perdas globais.
Segundo grande problema: falta de transparência na avaliação. O crédito privado carece de normas rigorosas de divulgação tanto no que toca à avaliação dos empréstimos como ao «mark-to-market» («Mark-to-Market»), criando uma estrutura específica de risco de liquidez: os investidores podem resgatar antecipadamente antes de a situação de crédito real se deteriorar; além disso, se as taxas de juro e os spreads de crédito subirem em simultâneo, os mutuários enfrentarão uma pressão em cadeia para refinanciarem de forma forçada a custos mais elevados.
Numa conferência de resultados de Dezembro de 2025, Dimon tinha apontado que, após uma perda de 170 milhões de dólares na empresa de crédito automóvel para o segmento subprime Tricolor, «ao ver uma barata, provavelmente há mais». Esta formulação, no contexto do mercado de crédito privado, assume agora um significado de alerta prospectivo ainda mais relevante.
O alerta da JPMorgan já foi corroborado por dados do mercado. No primeiro trimestre de 2026, dois fundos de referência da Blue Owl Capital receberam pedidos de resgate no total de cerca de 5,4 mil milhões de dólares, excedendo o limite de resgates de 5%, o que obrigou a restringir os levantamentos.
Blue Owl Technology Income Corp: pedido de resgate atinge 40,7% do valor líquido dos activos, muito acima do limite de resgates
Blue Owl Credit Income Corp (dimensão de cerca de 20 mil milhões de dólares): taxa de resgate de 21,9%
Outras instituições com restrições de levantamentos no mesmo período: Blackstone, Morgan Stanley, HPS (subsidiária da BlackRock), Ares Management, Apollo Global, KKR
No primeiro trimestre de 2026, o volume total de dinheiro que os investidores tentaram retirar de fundos de empréstimos directos foi de cerca de 19 mil milhões de dólares, o que mostra que a pressão global por resgates no sector atingiu um nível sistémico que requer limitações coordenadas por múltiplas partes.
Apesar dos alertas frequentes, na carta aos accionistas Dimon mantém uma avaliação prudente, mas optimista, do risco sistémico, apontando que o mercado de crédito privado, com uma dimensão de cerca de 1,8 biliões de dólares, «poderá não constituir risco sistémico»; esta posição coincide com a avaliação pública do presidente da Reserva Federal, Jerome Powell.
No entanto, a carta aos accionistas também avisa que, no final, as entidades de supervisão de seguros irão apertar as classificações e os critérios de avaliação, altura em que se prevê que aumente a pressão de capital sobre os fundos-alvo em questão. A diferença de quase duas vezes entre a taxa de incumprimento de crédito privado (9,2%) e a do mercado de empréstimos sindicados (4,5%) indica que o problema de preços de risco e de transparência nesse mercado ainda não foi totalmente reflectido nas avaliações actuais, criando armadilhas para um cenário potencial de perdas futuras.
Na carta anual aos accionistas, Dimon indicou que o mercado de crédito privado tem dois problemas estruturais: abrandamento dos critérios de aprovação do crédito e falta de transparência na avaliação. Os dados da Fitch mostram que a taxa de incumprimento no crédito privado dos EUA já atingiu 9,2%, um máximo histórico, quase o dobro da taxa do mercado de empréstimos sindicados, o que evidencia que o nível de acumulação de risco ultrapassou as expectativas do mercado.
De acordo com as avaliações da JPMorgan e do presidente da Reserva Federal Jerome Powell, o mercado de crédito privado, com uma dimensão de cerca de 1,8 biliões de dólares, «actualmente poderá não constituir risco sistémico». Contudo, Dimon simultaneamente alerta que, após o aprofundamento do ciclo de crédito, as perdas globais excederão as expectativas do mercado e que o aperto dos critérios regulatórios aumentará a pressão de capital sobre os fundos relacionados.
A crise de resgates da Blue Owl Capital confirma directamente a falha de transparência na avaliação apontada por Dimon — os investidores resgatam antecipadamente antes de a avaliação reflectir de forma suficiente a deterioração do crédito, gerando pressão de liquidez. Este fenómeno não é um caso isolado: seis grandes instituições, incluindo a Blackstone e a Morgan Stanley, implementaram simultaneamente restrições de levantamento no mesmo período, o que mostra que a pressão global sobre a indústria já atingiu um certo nível de escala.